Quando os cinéfilos saíram dos cinemas em setembro de 1986, após assistirem ao quarto filme de David Lynch, Blue Velvet, eles experimentaram uma gama de emoções. Alguns ficaram enojados pela presença de pessoas como Frank Booth, a agressiva personificação do mal por Dennis Hopper. Outros se revoltaram contra os subúrbios e pequenas cidades, os locais idílicos que Lynch acaba de expor em seu filme. E houve aqueles que ficaram irritados com o próprio Lynch, por submeter a icônica Isabella Rossellini a tamanha degradação na tela. Poucos, se é que havia alguém, saíram otimistas, mesmo que Blue Velvet termine com uma nota de esperança. Afinal, depois de tudo, o jovem de cidade pequena Jeffrey (interpretado por Kyle MacLachlan) e sua namorada do colégio Sandy (interpretada por Laura Dern) olham pela janela da cozinha e veem um pássaro pousado em um galho. Sandy, inocente, pergunta com um sorriso: “É um mundo estranho, não é?”. Para muitos espectadores, essa pergunta foi o golpe final, a prova de que o mundo era triste, escuro e assustador. Mas essa leitura ignora o otimismo presente não apenas em Blue Velvet, mas em toda a obra de Lynch.
O Despertar do Mal em Blue Velvet
Não é difícil entender por que as primeiras plateias de Blue Velvet interpretaram a cena final com sarcasmo. Desde o início, o filme é sombrio. Os créditos de abertura, exibidos sobre uma cortina de veludo azul ao som da música homônima de Bobby Vinton, dão lugar a uma iconografia suburbana: uma cerca branca, roseiras, um homem regando o jardim. Mas então, esse homem, pai de Jeffrey, sofre um derrame e desaba, enquanto seu pequeno cachorro late e lambe a água que escorre da mangueira. A câmera então se move para baixo, para o solo, onde vermes e insetos rastejam ao som de um ruído perturbador. Essa cena não apenas dá início à trama, que traz Jeffrey de volta à sua cidade natal, mas também serve como uma declaração de intenções. Blue Velvet explora o mal sob a fachada da vida americana.
Ao longo do filme, essa temática se intensifica. A investigação de Jeffrey sobre uma orelha decepada o leva ao apartamento da sedutora e problemática cantora Dorothy Vallens. O marido e filho de Dorothy foram sequestrados por Frank Booth, um criminoso que a agride física e sexualmente. Quando Frank descobre Jeffrey, ele o leva a um submundo de maldade que sempre existiu à margem da pacata cidade. Quando Dorothy, nua e ensanguentada, tropeça pela rua tranquila de Jeffrey, fica claro que a escuridão não pode mais ser ignorada.
Lynch e a Dualidade do Mal e da Esperança
A sinopse de Blue Velvet poderia se aplicar a muitos projetos de Lynch. Isso claramente lembra Twin Peaks (1990-1991, 2017), a série que Lynch fez com Mark Frost. Em três temporadas e no filme prequel Fire Walk With Me (1992), Twin Peaks mostrou como o assassinato da rainha do baile Laura Palmer (interpretada por Sheryl Lee) revelou uma luta cósmica entre o bem e o mal em uma cidade tranquila do noroeste do Pacífico.
- Wild at Heart (1990) contrasta a paixão dos amantes Sailor (interpretado por Nicolas Cage) e Lula (interpretada por Laura Dern) com todo tipo de loucura, incluindo Willem Dafoe como um dos personagens mais perturbadores que já interpretou.
- Lost Highway (1997), Mulholland Drive (2001) e Inland Empire (2006) se deslocam para Los Angeles, mas com a mesma tensão.
- Até mesmo Alvin Straight (interpretado por Richard Farnsworth) em The Straight Story (1999), o filme G-rated da Disney de Lynch, não escapa da loucura da vida, como demonstrado em uma cena em que ele e outro veterano relembram suas experiências de guerra.
A obra de Lynch nunca evitou olhar para a escuridão, e para muitos, essa é a principal atração de seu trabalho. Nada encapsula melhor essa perspectiva do que o ensaio de David Foster Wallace, “David Lynch Keeps His Head”, onde o autor identifica Jeffrey Dahmer como “totalmente lynchiano”.
O Otimismo na Obra de Lynch
É difícil discordar da avaliação de Wallace quando vemos o final de Blue Velvet. O pássaro que Jeffrey e Sandy observam parece irreal, falso e mecânico. Isso porque é um cadáver, um pássaro real que morreu durante as filmagens. Lynch o transformou em uma marionete, um eco da peça de arte “Fish Kit” que ele criou em 1975.
No entanto, a argumentação pessimista de Wallace ignora tudo o que está acontecendo ao redor dessa cena. Para ler o final de Blue Velvet como cínico, é preciso acreditar que o filme nos pede para zombar de Jeffrey e Sandy quando eles sorriem um para o outro. É preciso pensar que Lynch está usando a música de Julee Christie, “Mysteries of Love”, de maneira inadequada, ignorando sua mensagem de amor e clareza através da escuridão.
Mas Lynch não é irônico. A sinceridade permeia seu trabalho, desde o medo genuíno da paternidade que impulsiona seu filme de estreia Eraserhead (1977) até momentos de satisfação do público, como na cena em Twin Peaks: The Return, onde uma gravação de Otis Redding toca enquanto amantes frustrados finalmente se encontram.
Conclusão
Blue Velvet e a obra de Lynch como um todo são uma afirmação do bem contra um mundo terrível, um mundo que inevitavelmente contém pessoas como Frank. Quarenta anos atrás, muitos espectadores falharam em reconhecer essa afirmação e descartaram o final como uma sátira suburbana. Hoje, é evidente que precisamos da demanda de Blue Velvet por bondade mais do que nunca.