Você já atendeu uma ligação que não deveria? O Telefone Preto 2 (Black Phone 2) tenta repetir o sucesso surpresa do primeiro filme e, de quebra, transformar o “Grabber” em um vilão sobrenatural à la Freddy Krueger. Só que, no meio do barulho de promessas e referências, o que chega ao público é um horror sem graça, com regras confusas e pouca tensão.
No original, inspirado num conto de Joe Hill (filho de Stephen King), tínhamos um terror urbano de bairro: anos 70, crianças em perigo, uma ameaça palpável e uma máscara que grudou na cultura pop. Agora, com o Grabber morto no final do primeiro filme, o roteiro precisa ressuscitá-lo – literalmente. A solução: transformá-lo num espectro que atravessa sonhos e volta ao mundo real por frestas oníricas. O caminho aponta para Elm Street, mas sem o humor ácido, a inventividade das mortes ou o carisma do Freddy.
A trama leva Finn (Mason Thames) e sua irmã Gwen (Madeleine McGraw) a um acampamento cristão nos Alpes, onde ficam presos durante uma nevasca. Gwen continua recebendo visões; Finn, por sua vez, tenta lidar com traumas e a raiva que virou combustível. A escolha do cenário flerta com a cartilha do terror de fé (pense em Invocação do Mal): Deus versus diabo, céu versus inferno, e oração como arma — claramente mirando o público que lota sessões desse subgênero.
Só que a narrativa se complica com idas e vindas explicativas que pouco acrescentam. Descobrimos mais do passado de heróis e vilão, mas a “expansão de lore” soa burocrática. A sensação é de que o filme quer criar mitologia para uma franquia, sem a substância necessária para justificar tanta camadas.
Hawke tem presença vocal e corporal, mesmo quando o rosto mal aparece. Mas o resto do elenco não encontra o mesmo peso dramático, e os diálogos, muitas vezes, caem no “expositivo com cara de expositivo”. O resultado: sobram intenções, faltam calafrios.
Se você é fã do primeiro e quer ver para onde a história foi, vá com expectativas moderadas. Black Phone 2 tenta erguer um “universo” para o Grabber, mas carece de inventividade, economia narrativa e medo genuíno. Na comparação com Freddy e Jason — referências que o próprio filme convoca —, o Grabber ainda está mais para sussurro do que grito.
O Telefone Preto 2 queria ser o primeiro passo rumo a uma franquia — dessas que lotam a sessão de sexta-feira. Mas, ao empilhar regras, símbolos e “lore” sem a mesma dose de pavor, o filme vira uma chamada perdida. Quando o telefone tocar de novo, talvez valha pensar duas vezes antes de atender.
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