Mapas: A Política por Trás das Projeções Cartográficas

Acelino Silva
Mapas: A Política por Trás das Projeções Cartográficas | Não categorizado

A recente polêmica envolvendo mapas chamou atenção para a natureza política desses instrumentos, especialmente após o episódio em que Google e Apple rapidamente se ajustaram às intenções de Donald Trump de redesenhar o mapa em torno do Lago Ontário. Embora esse movimento tenha sido amplamente criticado, ele serviu como um lembrete de que mapas são, e sempre foram, intrinsecamente políticos. Não há exemplo mais claro disso do que o mapa-múndi. A Terra, sendo uma esfera, não pode ser projetada em uma superfície bidimensional sem distorções. A maneira como essas distorções são escolhidas é tanto uma questão de praticidade quanto uma consequência histórica e política.

A Projeção de Mercator: História e Uso

A familiar projeção de Mercator foi desenvolvida no século XVI como uma ferramenta de navegação, oferecendo duas propriedades fundamentais: ela transforma linhas de latitude e meridianos em linhas retas e preserva ângulos, sendo conformal. Essas características foram valiosas para navegadores e continuam sendo úteis nos serviços de mapeamento contemporâneos.

  • Mercator projeta a superfície da Terra em um cilindro, mapeando os círculos de latitude para o diâmetro do cilindro e os meridianos de longitude verticalmente.
  • Nos polos, os círculos de latitude diminuem, mas no Mercator são representados como de tamanho igual, o que resulta em distorções.

Impacto das Distorções no Mapa-Múndi

A projeção de Mercator é notória por fazer com que as massas de terra próximas aos polos pareçam maiores do que realmente são, enquanto aquelas próximas ao equador parecem menores. Isso tem implicações geopolíticas significativas, ampliando visualmente regiões como América do Norte, Europa e Rússia, enquanto minimiza áreas como América Latina, o subcontinente indiano, regiões da Ásia e, notoriamente, a África.

Reações e Propostas de Mudança

Diversos países africanos se manifestaram contra a distorção da África no Mercator. Recentemente, uma resolução da ONU, patrocinada por Togo e apoiada pela União Africana, sugeriu a adoção oficial da projeção Equal Earth, uma alternativa mais precisa.

  • A projeção Equal Earth, desenvolvida em 2017, é uma projeção pseudocilíndrica que preserva os círculos de latitude paralelos, mas ajusta seu raio em direção aos polos.
  • Diferente do Mercator, utiliza meridianos de longitude curvados, proporcionando uma representação mais fiel das áreas relativas.

A Importância de um Mapa Justo

Embora a projeção de Mercator tenha sido uma criação de seu tempo, sem intenções explícitas de distorcer a realidade, a correção desse “acidente” histórico deveria ser simples. A projeção Equal Earth oferece uma visão mais precisa do tamanho das terras do mundo, adequando-se melhor aos propósitos contemporâneos.

Resistências e Perspectivas Futuras

Apesar da clara superioridade da Equal Earth, a adoção enfrenta resistência, especialmente dos Estados Unidos, que foram o único país a votar contra a resolução. As objeções geralmente se baseiam nos custos e na complexidade das mudanças. Contudo, como visto na rápida adoção do “Lago América”, mudanças significativas são possíveis quando há vontade política.

Conclusão

A discussão sobre as projeções cartográficas destaca a importância de uma representação justa e precisa do mundo. A adoção da projeção Equal Earth poderia corrigir distorções históricas, favorecendo uma compreensão mais equitativa das dimensões globais. Em um mundo que busca justiça e precisão, essa mudança merece consideração séria e, possivelmente, ação.

Share This Article
Follow:
Sou um amante de séries, filmes, games, doramas, k-pop, animes e tudo relacionado a cultura pop, nerd e geek.