A Escolha Mais Subversiva de “Sinners” Não É A Que Você Imagina
O escritor e diretor Ryan Coogler poderia ter nomeado seu último filme de várias maneiras: “The Smoke Stack Twins”, “Sundown in Clarkesdale” ou “Panic! At the Juke Joint”. Mas ele optou por “Sinners”, um título que se conecta diretamente à decisão mais provocativa da narrativa do filme.
O que mais surpreende em “Sinners” não são os vampiros que surgem em uma história até então realista, nem a representação franca do sexo oral. O verdadeiro ponto de virada está na escolha de Preacher Boy Sammie (interpretado por Miles Caton), filho de um pastor do sul dos Estados Unidos, que decide rejeitar a igreja como fonte de sua salvação.
Rejeitando o Caminho Tradicional
No mundo ocidental, o cristianismo e suas virtudes associadas têm sido historicamente vistos como o que há de certo e decente para os personagens de filmes. Muitos são tentados a se desviar da pureza por diversos vícios em uma variedade de circunstâncias cinematográficas. Exemplos clássicos incluem as freiras em “Black Narcissus”, o vingativo personagem de Charlton Heston em “Ben-Hur” e até Michael Douglas em “Atração Fatal”.
Nessas narrativas tradicionais, os “pecadores” são punidos por se afastarem dos ensinamentos da igreja, e ao final, acabam adotando um estilo de vida que se alinha com essa abordagem tradicional, considerada a decisão “correta”.
Uma Escolha Corajosa
A escolha mais ousada de Coogler em “Sinners” é romper com essa tendência. Um cineasta menos audacioso teria dado ao arco de Sammie um desfecho mais mundano.
Já no início de “Sinners”, vemos Sammie ensanguentado dirigindo até a igreja de seu pai, com uma guitarra quebrada na mão. “Quero que você jure para mim, e diante desta congregação, deixar esses caminhos pecaminosos onde estão”, implora seu pai. “Largue a guitarra, Samuel. Em nome de Deus, deixe-a, Samuel. Largue-a.”

Quando o filme retorna a esse momento após um longo flashback, vimos Sammie experimentar a melhor e a pior noite de sua vida, repleta de altos transcendentais e baixos devastadores. Um roteirista/diretor menos ousado faria com que o personagem, após testemunhar o que são efetivamente demônios em seu mundo real, retornasse à segurança da pequena igreja, quase agradecido por voltar ao “normal” e aceitar seu futuro como herdeiro do púlpito de seu pai.
A Paixão de Sammie
Mas Coogler não segue esse caminho. Sammie recusa os apelos do pai e, em vez disso, vai embora, segurando o pescoço quebrado do instrumento firmemente contra o peito, como uma espécie de relíquia sagrada. Afinal, foi a guitarra, e não a palavra de Deus, que o ajudou quando ele usou sua prata para golpear a cabeça do vampiro Remmick (Jack O’Connell) durante uma luta fora do juke joint de seus primos.

Uma Jornada de Autodescoberta
Em um flashforward nos créditos finais para os anos 1990, descobrimos que o velho Sammie — agora um músico de sucesso interpretado brilhantemente pelo lendário bluesman Buddy Guy — de fato rejeitou a salvação da igreja em favor de seguir sua verdadeira paixão.
Coogler, que foi criado como batista e frequentou escolas católicas, compartilhou com a The New Yorker que “essa relação com o além, com minha própria mortalidade e como isso se apresenta através de uma lente católica ou batista, é algo com que venho lidando há muito tempo [..] para mim, este filme é sobre muitas coisas. Mas também é sobre o ato de lidar com isso.”
Conclusão: A Música Subversiva de Coogler
Quando o agora vampírico Stack comenta sobre a carreira de Sammie e diz que não gosta tanto do “elétrico” quanto do “real”, isso pode ser interpretado como alguém dizendo a Coogler que prefere suas obras originais aos seus trabalhos de franquia, como “Creed” e “Pantera Negra”. “Você ainda tem o real em você?” Stack pergunta. Esta questão serve como um desafio, e “Sinners” é a resposta de Coogler. O filme prova que ele ainda tem “o real”, e suas escolhas narrativas não convencionais soam como música doce para nossos ouvidos.
