O cinema sempre teve uma relação peculiar com os curtas-metragens. Muitas vezes, curtas que atraem um público considerável acabam sendo adaptados para longas com orçamentos maiores. O terror, em especial, se beneficia desse fenômeno, permitindo que ideias simples se tornem experiências mais complexas e, por vezes, problemáticas. Backrooms é um exemplo recente dessa dinâmica, originando-se de uma Creepypasta e ganhando notoriedade após o curta de 2022, dirigido por Kane Parsons. Agora, o diretor retorna para nos apresentar uma versão expandida, mas será que a experiência é tão envolvente quanto a original?
Em Backrooms, acompanhamos Clark (interpretado por Chiwetel Ejiofor), um comerciante de móveis enfrentando dificuldades financeiras e pessoais. A trama dá uma reviravolta quando ele encontra, no porão de sua loja, um portal que o leva a um labirinto infinito conhecido como Backrooms. Este lugar, repleto de salas vazias, paredes amarelas e luzes fluorescentes, carrega uma atmosfera de mistério e terror, onde um ser invisível parece vigiar cada movimento. A premissa inicial é instigante, mas o que acontece quando a história se desenvolve?
O filme se destaca pela sua capacidade de criar uma atmosfera claustrofóbica que remete à solidão e ao medo do desconhecido. As partes filmadas em formato de found footage são as mais eficazes, evocando uma sensação de desconforto que dialoga perfeitamente com a temática do Backrooms. Ao usar uma câmera analógica, o filme não apenas presta homenagem ao material fonte, mas também intensifica a sensação de desorientação que permeia o ambiente.
Uma vez que Clark encontra Mary, sua terapeuta, a narrativa começa a desandar. O filme tenta explicar os mistérios do Backrooms, introduzindo conceitos de mundos invertidos, algo que é recorrente na cultura pop. Porém, essas explicações acabam tirando o impacto do terror que havia sido estabelecido. A revelação do monstro que os persegue, por exemplo, se torna um ponto fraco da obra. O visual do ser, que deveria instigar medo, acaba por descomplicar a atmosfera sombria criada inicialmente. O terror, que antes era sutil e introspectivo, se revela em um clichê que parece mais uma caricatura do que uma ameaça real.
A relação entre os protagonistas também sofre com essa abordagem superficial. O arco de Clark, que deveria explorar sua deterioração psicológica devido ao ambiente opressivo, não é suficientemente desenvolvido. A personagem Mary, que tem a missão de trazer uma perspectiva mais humana à narrativa, acaba se tornando um elemento desnecessário, cuja história pessoal não se entrelaça de forma significativa com a trama principal. A falta de profundidade emocional torna difícil para o público se conectar com os personagens e suas experiências.
O resultado final de Backrooms é um lembrete de que, muitas vezes, menos é mais. O curta-metragem original conseguiu capturar a essência do terror de maneira mais eficaz, sem cair na armadilha de explicações excessivas ou de desenvolver uma narrativa que não se sustenta. O longa se esforça para expandir a ideia original, mas acaba perdendo a simplicidade que fazia o conceito funcionar tão bem.
Em suma, Backrooms é um filme que começa promissor, mas que se perde no caminho. A atmosfera claustrofóbica e os momentos de found footage são seus pontos altos, mas a tentativa de explicar o inexplicável enfraquece a experiência. O filme serve como um exemplo de que adaptar um curta para um longa pode ser um desafio e, muitas vezes, pode resultar em uma perda de imersão que prejudica o que poderia ter sido uma experiência memorável no gênero de terror.
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