O filme Backrooms: Um Não-Lugar chega aos cinemas como uma proposta inovadora e inquietante no universo do terror. Dirigido por Kane Parsons, o longa utiliza um conceito de medo que vai além do convencional — aqui, não há monstros à espreita, nem sustos tradicionais. O terror reside no silêncio de corredores vazios e no zumbido distante de lâmpadas fluorescentes, em ambientes que parecem conhecidos, mas que, ao mesmo tempo, desafiam nossa percepção de realidade.
O conceito de horror liminar faz parte da narrativa. Essa expressão se refere a espaços que são, por definição, transições: corredores de shoppings abandonados, lobbies de hotéis quase desertos e estacionamentos silenciosos. Esses lugares, criados pelo homem, perdem sua função original e, consequentemente, seu sentido. A despersonalização desses ambientes provoca uma angústia visceral, fazendo com que o espectador sinta que algo está errado, mesmo sem conseguir identificar o que.
Em entrevista ao Los Angeles Times, Kane Parsons explicou que o horror liminar “arma armadilhas com o passado, usando a nostalgia como isca”. Essa conexão com memórias afetivas, muitas vezes distorcidas e nebulosas, faz com que muitos espectadores se vejam refletidos nos espaços retratados. As imagens granuladas e mal iluminadas das fotos da infância evocam uma sensação de déjà vu, um reconhecimento que não tem endereço. Essa nostalgia sem origem se transforma em um elo entre o espectador e o filme, gerando uma atmosfera de desconforto.
Kane Parsons também traz à tona uma crítica social mais profunda em sua obra. Durante a mesma conversa com o LA Times, ele destacou como o mundo contemporâneo tem se tornado cada vez menor, levando as pessoas a habitarem espaços cada vez mais apertados e isolados. Essa discussão sobre o isolamento é especialmente pertinente em tempos em que a solidão se tornou uma experiência comum, e os espaços liminares se transformam em representações físicas dessa condição.
No filme, o personagem Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, é um vendedor de móveis que encontra um portal para as Backrooms, um labirinto de ambientes insólitos que não deveriam existir. Ao lado de sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, vivenciada por Renate Reinsve, ele é forçado a confrontar o isolamento que o consome não apenas dentro do labirinto, mas também na vida real. Essa dualidade entre o mundo real e o liminar é o que torna a experiência de Backrooms tão angustiante.
“Backrooms é, por excelência, aquilo que aproveitaria da nossa curiosidade e do nosso desejo de saber mais”, explica Parsons. O filme transforma essa crise individual em um fenômeno cultural, onde o medo se propaga não apenas entre os personagens, mas ecoa entre os espectadores. Ao retratar um espaço que parece familiar, mas que é irremediavelmente alienante, o diretor entrega uma crítica poderosa sobre a condição humana.
O que torna Backrooms tão assustador é exatamente sua habilidade de distorcer o familiar, levando o público a um estado de desconforto e inquietação. O filme nos faz refletir sobre a nossa própria existência em um mundo que frequentemente parece desprovido de sentido. O horror liminar, ao invés de se apoiar em sustos fáceis, provoca uma sensação de angústia que se infiltra lentamente, como uma sombra que nos persegue.
Assim, a obra de Kane Parsons não é apenas mais um filme de terror, mas uma exploração profunda de temas como o isolamento, a nostalgia e a busca por significado em um mundo que muitas vezes parece vazio. Ao final, Backrooms: Um Não-Lugar convida o espectador a confrontar seus próprios medos e a refletir sobre a fragilidade de suas conexões em um ambiente cada vez mais desconectado.
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